Câmara pode barrar projetos de Marília

Vereadores governistas ligados ao prefeito João da Costa (PT) temem que a maior parte do ônus que seria gerado pelas propostas da socialista – que regulamentam o consumo de bebidas alcoólicas no Recife – recaía sobre o gestor.

 

PE247 – Os polêmicos projetos elaborados pela vereadora recifense Marília Arraes (PSB), que regulamentam o consumo de bebidas alcoólicas no município, podem ser barrados pela base governista da Câmara de Vereadores. Apesar de terem sido aprovados em primeira discussão, as matérias ainda precisam passar pelo crivo dos parlamentares numa nova votação. Devido à repercussão negativa – evidenciada principalmente nas redes sociais – e à possibilidade de impacto direto no Executivo municipal, a socialista dificilmente conseguirá emplacar suas proposições com o texto atual.

Vereadores governistas ligados ao prefeito João da Costa (PT) temem que a maior parte do ônus que seria gerado pelos projetos de Marília recaía sobre o gestor. Como as matérias propõem que o Executivo regulamente e defina áreas de interesse turístico – zonas que ficariam livres das limitações impostas pelos projetos -, caberia a Costa dizer onde o consumo de bebidas alcoólicas não seria alterado.

Há um movimento, nos bastidores da Câmara, para que as matérias sofram modificações, através de emendas – que podem ser da própria Marília Arraes -, que possam diminuir o caráter impopular que as proposições assumiram. Com isso, os projetos ganhariam textos mais flexíveis, entretanto, com uma aplicação pouco eficiente.

Objetivo

Com o objetivo de colaborar com a redução da violência urbana, a vereadora Marília Arraes três projetos de lei que regulamentam o consumo de bebidas alcoólicas na cidade. Um deles, talvez o mais polêmico, restringe a venda e o consumo desse tipo de bebida em vias públicas da capital pernambucana. O segundo disciplina o acesso de menores de 18 anos aos bares e casas noturnas, limitando a venda do produto para maiores de idade. Os dois foram aprovados no dia 06 deste mês em primeira discussão.

Há ainda um terceiro, também de autoria de Marília, que limita para as 22h o horário de funcionamentos de bares e restaurantes aos domingos. Essa matéria também foi ao plenário, mas recebeu uma emenda do presidente da Casa, vereador Jurandir Liberal (PT), para alterar o horário limite para meia-noite. Com isso, a proposta voltou a tramitar nas comissões da Câmara.

Redes sociais

Marília Arraes abriu o debate, em seu gabinete (na Câmara) e nas redes sociais, com cientistas sociais e setores interessados em discutir os seus projetos. Contudo, após uma avalanche de manifestações contrárias às matérias, a parlamentar foi acusada de “manipular” a discussão em sua fan page no Facebook , com a retirada de comentários que continham críticas aos projetos e o bloqueio de pessoas que se posicionaram nesse sentido. A própria parlamentar assumiu que retirou de sua página na rede social esse material, alegando que o espaço era restrito ao debate referente ao seu mandato e não para “ataques”.

Fonte: PE247, 15/12/2011

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Projetos de Marília dividem as opiniões

Especialistas divergem sobre eficácia das propostas apresentadas pela vereadora. Enquanto uns descartam a ligação entre bebida e violência, outros defendem os projetos

Débora Duque – duque@jc.com.br

A história se repete. Sempre que o poder público ameaça tomar uma iniciativa para restringir alguns hábito do cidadão comum, ganham força os questionamentos acerca do direito do Estado de interferir em liberdades individuais, ainda que em nome de um bem “maior”. E, no caso dos projetos apresentados pela vereadora Marília Arraes (PSB), não foi diferente. Com o pretexto de favorecer o ordenamento urbano e diminuir os índices de violência no Recife, a socialista propôs a proibição de consumo de álcool em vias públicas e o fechamento de bares às 22h nos domingos (veja arte ao lado). Só que as reações contrárias, manifestadas ao longo da semana, colocaram em xeque não só natureza proibitiva das propostas como sua eficácia no combate à violência.

Para a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco e integrante do Núcleo de Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas de Segurança Pública da Universidade Federal de Pernambuco Patrícia Bandeira de Melo é nesse segundo ponto onde reside o problema. “De um modo geral, uma lei sempre vai restringir algo a alguém. Mas é difícil definir diretamente a relação causal entre álcool e violência”, observa.

Além de considerar o álcool apenas um dos inúmeros fatores culturais, econômicos, familiares e psíquicos que podem desencadear atos violentos, ela alerta que esses podem acontecer tanto em ambientes públicos como privados. “A gente debate a restrição do uso em espaços públicos, como se a violência também não imperasse em ambientes privados. Se a lei for aprovada e forem criados redutos onde o consumo seja permitido, o problema continua”, explica.

Também integrante do Núcleo, Ana Paula Portella acredita que o consumo de bebidas alcoólica não pode ser debatido no âmbito da segurança pública. Além disso, ela considera o número casos de homicídios em que os dois fatores estão associados irrisório para justificar a restrição do consumo em locais públicos, como consta num dos projetos. As estatísticas da Secretaria de Defesa Social mostram que apenas 17% dos assassinatos cometidos no Estado acontecem no chamado “Contexto de Consumo Etílico”. “É absolutamente insuficiente para justificar uma privação dessa natureza”, opina. A pesquisadora ainda teme uma aplicação “segregadora” dessas leis, uma vez que caberá ao Executivo municipal regulamentar os locais onde será permitido o consumo de álcool nas condições previstas nos dois projetos. “As brechas que a lei abre terminarão sendo privilégio das classes média e alta”, avalia.

Para o cientista político e membro do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), Manoel Moraes, dependerá da sociedade civil e do Poder Legislativo fiscalizar como a lei será posta em prática. Mesmo favorável aos projetos, Moraes alerta que a iniciativa só poderá ter algum êxito se estender-se a outros municípios da Região Metropolitana e vier acompanhada de políticas estruturadoras de segurança públicas. “A necessidade de aumentar nosso arco punitivo não deixa de ser um reconhecimento da nossa incapacidade de transformar essa realidade culturalmente”, reconhece

Fonte: Jornal do Commércio, versão impressa, 18/12/2011

Marília admite adiar projeto para 2012

Presidente da Comissão de Justiça da Câmara do Recife, a vereadora Marília Arraes (PSB) admitiu, ontem, a possibilidade de adiar, para o próximo ano, a segunda votação do projeto de lei 130/ 2011, que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas da cidade. Embora a matéria possa ser apreciada em plenário na próxima semana, antes do recesso da Casa (no dia 21), ela afirmou não ter “intenção de aprovar nada de goela abaixo”. A própria autora demonstrou ter dúvidas, o que coincide com o sentimento dos outros vereadores, que se viram pressionados a discutir melhor a proposta depois de a aprovarem por unanimidade no último dia 6.

Segundo o presidente da Câmara, Jurandir Liberal (PT), a proposição pode prejudicar o comércio e a individualidade das pessoas, já que impede que se beba em lugares abertos das 18h às 6h em qualquer dia da semana. Isso inclui, por exemplo, calçadas, praias, praças, avenidas, pontes, feiras livres, postos de gasolina, pontos de ônibus, entradas de estabelecimentos públicos e privados. “Vou conversar com a vereadora, mas espero que esse projeto seja maturado. Até mesmo para saber se tem operacionalidade”, observou Jurandir.

Marília Arraes justificou, em entrevista ao Diario, que a matéria visa diminuir o número de homicídios em espaços abertos, em virtude do uso demasiado de bebidas alcoólicas e da utilização de som alto. Ela frisou, inclusive, ter o apoio do secretário estadual de Defesa Social, Wilson Damázio. O detalhe, no entanto, é que ela mesma não sabe como o projeto pode ser posto em prática.

A vereadora fez algumas sugestões, ontem, dizendo que a Prefeitura do Recife deve criar espaços públicos (abertos) para o consumo de bebida ou fazer um mapeamento da cidade, para avaliar onde pode ou não ser permitido beber em vias públicas. Ela se referiu, por exemplo, a ruas que viraram “points”, como a Mamede Simões, em Santo Amaro, onde existem seis bares que ocupam calçadas e parte da via pública com mesas e cadeiras.

“Não quero interferir na liberdade individual, quero apenas regulamentar, abrir a discussão sobre o problema da bebida alcoólica no Recife. Nós conversamos com representantes do Ministério Público e todos foram unânimes em dizer que não se pode evitar a poluição sonora sem regulamentar a bebida”, observou.

Questionada sobre o que aconteceria, por exemplo, com bares que colocam mesas nas ruas, com as festas populares, ou até pessoas que costumam “tomar uma” na frente de casa, como é tradicional no Recife, ela disse que será necessário mudar a cultura. “A prefeitura precisa criar espaços onde as pessoas possam se concentrar, seja uma praça, seja uma rua…”, declarou, tocando na essência do seu próprio projeto. Ruas e praças são vias públicas.

Fonte: Diário de Pernambuco, 16/12/2011

Câmara pode barrar projetos de Marília

Vereadores governistas ligados ao prefeito João da Costa (PT) temem que a maior parte do ônus que seria gerado pelas propostas da socialista – que regulamentam o consumo de bebidas alcoólicas no Recife – recaía sobre o gestor.

PE247 – Os polêmicos projetos elaborados pela vereadora recifense Marília Arraes (PSB), que regulamentam o consumo de bebidas alcoólicas no município, podem ser barrados pela base governista da Câmara de Vereadores. Apesar de terem sido aprovados em primeira discussão, as matérias ainda precisam passar pelo crivo dos parlamentares numa nova votação. Devido à repercussão negativa – evidenciada principalmente nas redes sociais – e à possibilidade de impacto direto no Executivo municipal, a socialista dificilmente conseguirá emplacar suas proposições com o texto atual.

Vereadores governistas ligados ao prefeito João da Costa (PT) temem que a maior parte do ônus que seria gerado pelos projetos de Marília recaía sobre o gestor. Como as matérias propõem que o Executivo regulamente e defina áreas de interesse turístico – zonas que ficariam livres das limitações impostas pelos projetos -, caberia a Costa dizer onde o consumo de bebidas alcoólicas não seria alterado.

Há um movimento, nos bastidores da Câmara, para que as matérias sofram modificações, através de emendas – que podem ser da própria Marília Arraes -, que possam diminuir o caráter impopular que as proposições assumiram. Com isso, os projetos ganhariam textos mais flexíveis, entretanto, com uma aplicação pouco eficiente.

Objetivo

Com o objetivo de colaborar com a redução da violência urbana, a vereadora Marília Arraes três projetos de lei que regulamentam o consumo de bebidas alcoólicas na cidade. Um deles, talvez o mais polêmico, restringe a venda e o consumo desse tipo de bebida em vias públicas da capital pernambucana. O segundo disciplina o acesso de menores de 18 anos aos bares e casas noturnas, limitando a venda do produto para maiores de idade. Os dois foram aprovados no dia 06 deste mês em primeira discussão.

Há ainda um terceiro, também de autoria de Marília, que limita para as 22h o horário de funcionamentos de bares e restaurantes aos domingos. Essa matéria também foi ao plenário, mas recebeu uma emenda do presidente da Casa, vereador Jurandir Liberal (PT), para alterar o horário limite para meia-noite. Com isso, a proposta voltou a tramitar nas comissões da Câmara.

Redes sociais

Marília Arraes abriu o debate, em seu gabinete (na Câmara) e nas redes sociais, com cientistas sociais e setores interessados em discutir os seus projetos. Contudo, após uma avalanche de manifestações contrárias às matérias, a parlamentar foi acusada de “manipular” a discussão em sua fan page no Facebook , com a retirada de comentários que continham críticas aos projetos e o bloqueio de pessoas que se posicionaram nesse sentido. A própria parlamentar assumiu que retirou de sua página na rede social esse material, alegando que o espaço era restrito ao debate referente ao seu mandato e não para “ataques”.

Fonte: PE 247

Os Erros do Projeto de Lei contra o Consumo de Bebidas

Existe um livrinho que li há algum tempo atrás para ensinar uma disciplina de Metodologia Científica (e que devo ter perdido na última mudança) do qual fui obrigado a me lembrar durante essa discussão com a vereadora Marília Arraes sobre o projeto de lei proibindo o consumo de bebida nas vias públicas de Recife. O nome do livro é Lies, Damn Lies and Statistics, de Michael Weeler, em português, algo como “Mentiras, mentiras malditas e estatísticas”. E o subtítulo é ainda mais apropriado: “a manipulação da opinião pública na América”. Bem, nem me lembro mais dos detalhes do livro e não poderia usá-lo para valer nesse debate. Mas tem um outro ótimo livro, com um título muito apropriado para o momento, que me ensinou uma idéia muito importante para desmontar os argumentos da vereadora, é o livro O Andar do Bêbado, de Leonardo Mlodinow. O capítulo 6 do livro fala de probabilidade condicional, do Teorema de Bayes, e de como uma confusão em entender como a estatística estabelece relações entre causa e efeito leva a erros de diagnóstico médico, decisões erradas em júris, inclusive a que inocentou O.J.Simpson (pp.129-130). O caso do argumento apresentado pela vereadora podia entrar para a lista.

O principal dado publicado nos jornais era o da constatação de que 51% dos casos de homicídios ocorridos em contexto de consumo de álcool aconteceram em espaços públicos (http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2011/12/06/marilia_arraes_diz_que_medida_vai_reduzir_violencia_no_recife_120578.php Não estou achando outro link). O problema é que esse número, como fica mais claro ainda ao se analisar os dados detalhados divulgados pela vereadora (http://pt.scribd.com/doc/75174742/Pesquisa-sobre-homicidios-com-vitimas-e-ou-autores-consumindo-bebida-alcoolica), diz somente que dentre os homicídios ocorridos em contexto de consumido de bebida metade ocorreu em via pública. Ora, isso pode significar somente que se uma pessoa já queria matar outra e ficou motivado pela bebida (variável homicídio + variável bebida) é mais fácil fazer isso na rua do que dentro do bar (onde pode ser contido) ou na casa da vítima. A relação que realmente importa para estabelecer a causalidade não é essa, mas a de quantos assassinatos em via pública envolveram álcool, a probabilidade condicional inversa. Esse dado não está claro na pesquisa, mas são apresentados outros dados (nos slides 4 e 11) que nos permitem desmontar a fundamentação supostamente científica do PL.

No slide 11 é apresentada uma comparação entre os homicídios (chamados no levantamento pelo termo “Crimes Violentos Letais Intencionais” (CVLI)) em geral e os ocorridos em contexto de consumo etílico (definido vagamente como contendo não só os casos em que o autor do crime estava embrigado, mas também os em que há “presença de álcool” [o que isso quer dizer] ou que a vítima estava embriagada, definição esta que obviamente inflaciona as estatísticas em relação ao número que é relevante para a conclusão desejada pela vereadora). Nessa comparação vemos que 69% dos homicídios em geral ocorrem em espaço público enquanto que 7% ocorrem em bares. Quando acrescentamos a presença da variável do “contexto de consumo etílico”, a proporção muda para 51% dos homicídios em CCE ocorrendo em espaço público e 31% ocorrendo em estabelecimentos comerciais. Ora, isso é uma aula de probabilidade condicional. Para entender o que isso significa, pense assim: se você tivesse que fazer uma aposta para acertar em que local um dado assassinato ocorreu e você não tem nenhuma informação além do primeiro gráfico, isso significa que vocẽ teria 69% de chance de acertar o local do crime se dissesse que ele ocorreu em um espaço público. Mas se eu acrescento a informação de que havia bebida no contexto (o que quer que isso signifique!), as chances de você acertar se apostar que o local foi um espaço público caem para 51%. Ora, você só pode dizer que uma coisa causa a outra ou está pelo menos correlacionada (usando a precaução da correlação não é causação) se a informação dessa evidência adicional aumenta a probabilidade do efeito. Você diz que fumar causa câncer, porque dizer que uma pessoa está no grupo de fumantes aumenta sua chance de ter câncer em relação à informação genérica do percentual de câncer na população. A gente sabe que correlação não é causação e que confundir essas coisas é um dos mais básicos erros de estatística, mas no caso em questão não há correlação e sim até uma leve correlação inversa!

E, vamos lá, só o primeiro gráfico desse slide já mostra clara e inequivocamente que em Pernambuco você tem duas vezes mais chances de ser morto na rua do que em um lugar fechado, independentemente de bebida ou nao. Se a lógica da vereadora valesse, deveria ser proibido andar na rua! E, também segundo esse gráfico, o lugar mais seguro desse Estado que não consegue reduzir suas estatísticas de homicídios é dentro de um bar ou estabelecimento comercial, onde só 7% dos homicídios ocorrem! É um lugar 9,8x mais seguro que a rua! Bem.. juntando essa informação com a do slide 4, chegamos a uma conclusão ainda mais interessante.

A estatística divulgada em todo lugar, como eu destaquei acima, é a de quantos homicídios envolvendo bebida ocorreram em via pública. Ou seja, é um recorte do conjunto de casos de homicídios envolvendo bebida. Quer dizer, um recorte em um outro recorte do universo total de casos de homicídios. E qual o tamanho desse primeiro recorte no universo? O slide 4 nos dá a informação: 17% dos casos de homicídio em Pernambuco ocorreram em CCE, contexto de consumo etílico. Dezessete por cento! Mesmo deixando de lado, como uma concessão, o fato de que a definição de CCE pode inflacionar os casos, isso significa que o projeto de lei da vereadora só está visando um sexto dos casos de homicídios que ocorrem no nosso Estado! Mas quando a gente junta os dois dados é que notamos o duplo erro do diagnóstico e do remédio:

  • O slide 4 diz que 17% dos casos de homicídio ocorrem em contexto etílico. Esse é o primeiro recorte do universo total de homicídios.
  • O segundo gráfico do slide 11, diz que 51% dos casos de CVLI em CCE ocorrem em via pública. Esse é o recorte do recorte.

Então qual a percentagem dos assassinatos que ocorreram nas circunstâncias que a lei pretende proibir? A conjunção em estatística é feita pela multiplicação, então a percentagem dos casos de CVLI em CCE ocorridos em espaço público é de 17% x 51%, ou seja, 8,67%, menos de um décimo dos homicídios ocorridos em PernambucoA lei aprovada só tem capacidade de inibir menos de um décimo dos homicídios que ocorrem!

A maioria dos slides seguintes exploram estatísticas dentro do sub-conjunto dos CVLI em CCE e, portanto, devem todas ser relativizadas a essa proporção, dentro do universo geral, dos homicídios que ocorrem com envolvimento de bebida.

(Obs: depois observei o detalhe que a proporção de homicídios em CCE em Recife é de 15%, um pouco menos do que a média do estado, o que puxa as contas acima para baixo: só 7,6% dos homicídios de Recife são em CCE e em via pública)

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Como professor de filosofia que tem se interessado ultimamente pelas discussões da filosofia política e ética e que tem usado bastante esse espaço do Facebook ultimamente para debater sobre esses assuntos com pessoas bastante inteligentes, a primeira coisa que pensei quando vi o projeto foi no velho problema da relação tensa entre o poder do Estado e a liberdade individual. Até deixei no mural da vereadora um dos primeiros comentários (curtido 59 vezes) de uma discussão que rendeu 180 comentários, contendo uma citação do querido Kant:

Um governo fundado no princípio da benevolência em relação às pessoas – por analogia de um pai com seus filhos, e por isso chamado de um governo paternalista – seria aquele em que os cidadãos seriam considerados como crianças ou menores de idade incapazes de distinguir o que é benéfico ou danoso para eles. Estes cidadãos seriam assim compelidos a agir de uma forma meramente passiva; (…) Um tal governo seria a maior forma possível de Despotismo“.

Eu não sou um partidário do Estado mínimo, do liberalismo econômico, e vivo discutindo com uma amiga minha tão liberal que é quase anarquista, mas esse caso foi um grande ponto a favor dela. A gente pode até concordar que o Estado se intrometa na economia para evitar crises, para promover o crescimento e o emprego de mais pessoas, que o Estado possa criar uma rede de proteção social e que ele deva cuidar de bens públicos que o mercado não tem condições de prover (como pesquisa básica, proteção do ambiente etc.), mas se aceitamos como axioma e sem relativizações a frase de Marília Arraes no twitter, quando ela diz que “o legislativo tem que se preocupar com a coletividade e não com o indivíduo”, fica aberta a porta para a ladeira escorregadia que leva a um Estado que se concede o direito de gerenciar a vida dos seus cidadãos nos mínimos detalhes. Isso como se a coletividade não fosse formada por indivíduos e o “Bem Comum” não se concretizasse no bem de cada um dos cidadãos.

Mas a discussão na filosofia política é longa e não precisamos ir tão longe. O projeto falha tanto do ponto de vista libertário, como é óbvio, quanto do ponto de vista utilitarista, porque produz um resultado supostamente benéfico do ponto de vista coletivo através de uma medida que produz mais custos no bem-estar dos cidadãos do que outras medidas disponíveis. Quer dizer, mesmo do ponto de vista de uma ética dos meios e fins não é o melhor meio para atingir o fim proposto. E, em cima de tudo isso, tem o erro na análise estatística, o erro do diagnóstico e do remédio. O que mostra que mesmo do ponto de vista da filosofia política mais tecnocrata, o projeto está equivocado. E isso também mostra como a filosofia pode contribuir para o debate político da maneira mais inusitada: não só pela filosofia política ou pela ética, mas pela filosofia da ciência! Outras áreas também ajudariam, como a lógica, para mostrar como é falacioso argumentar a partir de condutas já tipificadas como crime ou já disciplinadas por lei, e não devidamente coibidas pelo poder público, a favor da necessidade de mais uma lei para proibir o contexto em que essas transgressões da lei ocorrem, adotando uma lógica da falácia da ladeira escorregadia (“se deixamos as pessoas beber na rua, logo logo elas estarão se esfaqueando…”). Para um filósofo, admirador da Razão e dos bons argumentos,  tudo isso se junta numa triste constatação: o problema não é nem (somente) de princípios políticos, em ter a sua liberdade cerceada por causa da atitude de outras pessoas e pela incapacidade do poder público em fazer valer as leis já existentes, ou do risco de abrir a porteira para que o Estado possa usar o bem da comunidade como desculpa em outras limitações da liberdade (toque de recolher?), ou ainda de abrir caminho para reprimir o crime antes de ele ocorrer, como no filme Minority Report, mas que soluções melhores não tenham sido amplamente debatidas e que a solução aprovada tenha se baseado em evidências tão frágeis!

Vários outros bons argumentos foram apresentados para a vereadora pelas discussões do Facebook (o papel social do consumo de bebida na rua, o potencial de discriminação entre formas de consumo de álcool por diferentes classes sociais, o risco de corrupção ou uso indevido na concessão ao poder público da possibilidade de emitir licenças especiais..)  e não dá para compilá-los aqui para essa nota não ficar ainda maior. Mas com isso aprendi uma coisa interessante, além de conhecer um bocado de gente inteligente e disposta a um bom e honesto debate público: uma grande lição desse debate no âmbito restrito do Facebook e da quantidade de bons argumentos surgidos no mural da vereadora é que ela, a vereadora, conseguiu formar um belo exemplo de inteligência coletiva contra o projeto dela! Imaginem como não teria sido produtivo ter usado essa força criativa antes na busca de uma solução mais certeira e com menos efeitos colaterais para problemas cuja gravidade todos estão de acordo!

Fonte: Leonardo Cisneiros, no Blogue do Jampa

Marília Arraes e o desgaste desnecessário.

A vereadora Marília Arraes é autora de um projeto de Lei que determina a proibição de consumo de bebidas alcoolicas em vias públicas a partir de um determinado horário.
O projeto é questionável, tanto positivamente quanto negativamente. Existem seus prós e seus contras de uma medida como esta.
A questão foi a condução equivocada por parte da vereadora socialista. Ela abriu a discussão em sua página do Facebook e sua assessoria apagou questionamentos contrários ao projeto. Como se não bastasse uma medida arbitrária como essa, Marília ainda soltou uma nota dizendo que apagou apenas aquelas postagens que julgava ‘ofensivas’. Um grande equívoco.
Mesmo que tivesse sido ela a responsável pela exclusão de postagens, a vereadora deveria ter buscado um bode expiatório e dizer que isso não iria mais se repetir. Quando a vereadora concorda com a atitude de público, ela passa a imagem de antidemocrática, algo totalmente contraditório para quem é neta de Miguel Arraes de Alencar, um grande defensor da democracia no Brasil.
Marília atraiu pra si um desgaste desnecessário. Na ânsia de fazer com que seu projeto realmente contribuísse para a sociedade, cometeu um pecado cruel na política. Os gestos valem mais que muitas palavras e esse da vereadora foi um verdadeiro tiro no pé.

Por enquanto, João da Costa evita debate sobre ”Lei Seca” de Marília Arraes

Enquanto não precisar se meter, o prefeito João da Costa quer distância da polêmica envolvendo os projetos que proibem venda e consumo de álcool em vias públicas, de autoria da vereadora Marília Arraes (PSB).

Quando questionado sobre os impactos negativos que os projetos poderiam trazer para ele quando chegassem ao seu gabinete, o prefeito saiu pela tangente.

“Isso é um debate da Câmara. Cabe à Câmara se posicionar. Isso é um debate que está sendo travado lá pela Câmara, o governo não fechou posição de bancada nem com os partidos. Eles estão analisando. O que sair da Câmara vou analisar em função da cidade”.

Fonte: Blog do Jamildo