Marília, a culpa é nossa.

Quando a vereadora do PSB, Marília Arraes, lancara a PL a respeito a proibicão do consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas entre as 22hrs e 6hrs da noite, eu tive um susto. Susto por que a PL fora aprovada em primeira instância na câmara e também pelo seu conteúdo. Creio ter sido na tarde desta quarta feira passada, estava na biblioteca estudando para a monografia. Naquele momento, por ironia do destino lia justamente sobre a lei seca estadunidense e os seus diversos efeitos colaterais, que culminaram na revogacão da lei. Lia com algum conforto, tendo o privilégio de assistir as cagadas de algumas políticas públicas do passado de camarote. Até que entre uma bisbilhotada e outra em meu facebook me deparo com o PL da digníssima vereadora. Parecia uma brincadeira de mal gosto. Todos os argumentos obsoletos, vazios e autoritários usados para legitimar a proibição do uso de álcool na lei seca estadunidense ressuscitaram, saiam necrosados e empoeirados para ganhar vida na boca da vereadora. Uma espécie de assombração eletrônica que nunca vi acontecer, dos meus pdfs para a nossa querida Marília. Logo que a digníssima divulgava a sua conquista parlamentar, seu facebook recebera uma enxurrada de reclamações, muita gente conhecida, inclusive, atacava a PL da vereadora. Eu, obviamente, também argumentei e critiquei seu projeto. Algumas pessoas mais emocionadas com o absurdo da PL partiam para uma agressão menos fundamentada, outros colegas construíam argumentos fortes, embasados e tentavam com eloqüência e uma evidente irritação mostrar para a vereadora o absurdo que vazia. Absurdo político? Claro que não, Marília não é burra. Absurdo democrático? Certamente sim, tirar a liberdade dos cidadãos tendo o medo como a principal motivação é o argumento mais usado por todo o regime totalitário, tanto de direita como de esquerda. Enfim, todos nós criticamos o projeto, mostramos nosso descontentamento e alguns de nós, inclusive eu, fomos meio incisivos e ‘ocupamos’ a página da vereadora. No entanto, na minha reflexão (ó! profunda reflexão, rs…) de domingo me perguntei, quem é o verdadeiro culpado dessa PL? Cheguei a triste e, relativamente óbvia conclusão de que nós somos os culpados, todos ali que criticaram e grande parte dos que estão contra a vereadora são responsáveis e muito, pelo fato do PL estar aonde estar. Somos, em nossa maioria, estudantes universitários ou jovens profissionais. Nos comentários da PL da vereadora havia sociólogos, antropólogos, historiadores, filósofos, professores, jornalistas, profissionais da área cultural, musical etc. Todos nós ou a grande maioria não dispensamos um bom boteco com mesas e cadeiras nas calcadas, um arzinho fresco para refrescar e uma boa gelada. Tradicionalmente saímos de nossas universidades ou do trabalho numa sexta ou, as vezes, em dia de semana e as cadeiras de fora são as mais disputadas. Criticamos o PL por que ele nos atingiu diretamente, atingiu no que mais prezamos como prática hedonista de nossa vida profissional, a bohemia (pseudo?) intelectual. Muitos do que ali comentaram, acompanham pouco da atividade medíocre da câmara dos vereadores, grande parte dos estudantes de humanas de Pernambuco parece ter se isolado da vida política de sua cidade, universidade e seus arredores. Somos os indivíduos formados e instruídos para ter a maior capacidade argumentadora e conhecimento para acompanharmos e pressionarmos, quando necessário, a câmara dos vereadores, câmara dos deputados, e outras instâncias do governo. Temos conhecimentos importantes sobre estruturação política, movimentos sociais, políticas públicas, lei, etc… e, no entanto, o que fazemos? É interessante perceber que o edifício da universidade federal que mais forma indivíduos incabidos de pensar a sociedade e influenciar na sua melhor estruturação, é também o edifício que mais definha e literalmente cai aos pedaços. Estudamos sobre ditaduras, governos totalitários, revoluções, sociedade de controle, abusos de poder e, ainda assim, fomos todos nós, alunos e professores, incapazes de nos mobilizarmos e fazermos com que os elevadores do edifício mais alto da UFPE, o CFCH e seus 15 andares, voltasse a funcionar tempranamente. Os elevadores ficaram mais de três meses ora funcionando ora não. Muitos de nós temos boa consciência política, boa consciência ecológica e fazemos pouco, muito pouco. A grande maioria, talvez pelas próprias dificuldades de por parte de nossas crenças em prática, fica satisfeita com o hedonismo. Somos incapazes de nos organizarmos politicamente, mas veja só ‘inventamos’ as festas open bar, elaboramos os lugares transados da cidade, os festivais, as amostras, os espaços artísticos. Volta e meia abrimos um bar ali e outro aqui, fazemos excelentes vídeos de divulgações de festa, lugares legais e de grande movimentação de pessoas e dinheiro onde podemos ser intelectuais, nos embriagar e esquecer um pouco que o resto da cidade não entende nada sobre sociedade de classes e indústria cultural. Muitos de nós achamos a política daqui algo muito ‘mundano’ talvez até ‘imundo’ e nos ‘aquartelamos’ em nossas monografias, reportagens, eventos, teses, intervencões e dissertações. Reinventamos a roda em nossos argumentos lindos e de boa nota nas bancadas acadêmicas, sabemos muito de sociedade e fazemos a acadêmicofagia, a academia para a academia, temos o nosso clubinho e publicamos artigos para nós mesmos, matérias e documentários criticando o resto do mundo também para nós mesmos, e achamos isso cool, legal e estamos satisfeitos e felizes. É bonito escrever sobre as lutas do MST, fazermos vídeos criticando as grandes construtoras da cidade, ou fazermos passeatas para a legalização da maconha, afirmação gay, emancipação feminina etc. Fazemos argumentos lindos para pessoas que já nos entendem, recebemos os elogios que esperamos e nos damos por satisfeitos, quando fazemos as marchas falamos de nós para nós mesmos, criticamos todos que estão nos criticando, estamos juntos, temos uma forte idéia de unidade e de voz uníssona para depois voltarmos a nossa corriqueira acadêmico fagia. Até que… uma das herdeiras da dinastia Arraes tenta usurpar o nosso direito de nos anestesiarmos um pouco desse mundo que tentamos fazer de conta que não existe. Ai perdemos o eixo, bombardeamos sua página da internet usando nossas respectivas capacidades argumentativas tão respeitadas na academia, sugerimos passeatas e mobilizações, falamos mal da câmara dos vereadores, pedimos para eles não nos meterem em nossas vidas, invocados o direito de liberdade (liberdade?), chamamos a deusa democracia, acusamos de totalitarismo autoritarismo etc etc, berramos berramos e berramos, quase que esperando que a providência da razão caia sobre sua cabeça e que nossos argumentos funcionem, afinal de contas, não são tão bons em artigos publicados? Muitas pessoas aqui podem estar um pouco irritadas, sentindo-se diretamente atacada ou, com alguma razão, pensando: “porra esse cara ta falando mal de todo mundo, mas que porra ele faz”? Eu decidi estudar sociologia para colaborar, de alguma forma, para a construção de um mundo melhor e, com alguma ‘preguica’ vou notando que não adianta ficar somente nos espaços das faculdades, rodas intelectuais ou afins. Critiquei vocês da mesma forma que me critiquei, não sou melhor do que ninguém aqui, por isso mesmo fiz essa postagem. Somados nós somos fácil 8 mil pessoas, número mais do que suficiente para fazer rebuliço político, eleger deputado estadual, eleger vereador etc etc… Juntos temos uma estrutura impressionante de mobilização política, espaços culturais, espaços artísticos, casas de festa, bares, e festas open bar. Unidos temos um alcance considerável. Não vou falar aqui em nomes de pessoas, muito menos de organizações, não quero apontar o dedo pra ninguém, mas muitos de nós temos importantes interesses em comum, somos todos a favor de ciclovias, legalização do aborto, criminalização da homofobia, legalização da maconha, permissão para beber em vias públicas, festivais culturais, políticas publicas de valorização dos espaços artísticos, uma urbanização mais responsável etc etc. Além disso, já temos toda uma estrutura que se funciona muito bem para festa, não podia ser diferente em termos políticos. Já temos todo o know-how político sem nem sabermos. Imaginem se nós, jovens universitários e/ou profissionais conseguíssemos nos organizar de maneira sistemática para termos essas causas como nosso denominador comum? Imaginem se esses festivais e espaços artísticos tivessem o mínimo de participação política? Imagine se todo antropólogo, sociólogo, jornalista etc… pudesse formular um blog crítico e incisivo a respeito de nossa realidade local? Creio que podemos fazer isso e que devemos abrir nossos olhos para tal, assim sendo, será mais fácil resistir a medidas públicas absurdas e reclamarmos com forca e consistência a respeito de nossos direitos, afinal de contas só tem direito de reclamar quem participa. Aceitar que a democracia não é um direito, mas uma condição constantemente sob disputa é uma algo fundamental para podermos garanti-la. Espero ter cooperado na troca de idéias e quem sabe, que possamos partir para ações mais fortes. Um forte abraço a todos.

Fonte: Desdaprismo

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