A desastrosa gestão de mídias sociais de Marília Arraes

Desde a última quarta-feira (07), a vereadora do Recife Marília Arraes (PSB) viu sua página do Facebook se transformar na plataforma de debates mais intensa que um parlamentar municipal da cidade jamais viu. A polêmica em torno de seu projeto de lei que pretende proibir o consumo de bebidas alcoólicas nas vias públicas do Recife fez com que uma avalanche de comentários contrários à sua proposta tomasse conta de sua página.

Sobre o projeto em si, recomendo a leitura do artigo “Os erros do projeto de Lei contra o consumo de bebidas“, que analisa como a vereadora se utilizou de uma pesquisa estatística de forma equivocada para justificar seu projeto de lei.

Estou acompanhando a polêmica desde o início, e para facilitar o entendimento de tod@s, divido a narrativa dos acontecimentos em três partes: 1 – broadcast: falando de cima pra baixo; 2 – a interlocução bem-vinda; 3 – recifenses sem voz: a censura em tempos democráticos.

Desde a noite de ontem dezenas de pessoas estão sendo sumariamente excluídas da página da vereadora (inclusive este blogueiro que vos escreve), e centenas de comentários estão sendo deletados, numa postura extremamente antidemocrática e autoritária da vereadora, que simplesmente, depois de “abrir” o debate, optou por calar a boca da opinião pública recifense.

Infelizmente a vereadora e sua assessoria não calcularam os efeitos desse gesto extremamente reprovável, e a repercussão ao seu projeto (que já era negativa), agora se tornou uma repercussão duplamente negativa: ao projeto e ao próprio comportamento de Marília Arraes e seu gabinete.

Mas vamos por partes. Ao final do post, falo sobre nossa ida à Câmara, ontem, e sobre as articulações que estamos movendo para barrar este projeto. Com isto já fica dito que sou contrário à proibição do consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas, mas não pretendo me alongar nisto, senão fazer uma análise sobre a gestão desastrosa das mídias sociais da vereadora.

Broadcast: falando de cima pra baixo

As primeiras movimentações polêmicas na página da vereadora aconteceram na terça-feira, dia 6 de dezembro, por volta das 18h. Nesta postagem, sua assessoria informa que os projetos de leis nº 128 e 130 foram aprovados na Câmara.

Sem imaginar a repercussão extremamente negativa ao projeto nº 130 (o que proíbe o consumo de álcool em vias públicas), a vereadora chegou a postar um comentário dizendo o seguinte: “Agradeço o apoio de tod@s!” Mas esse “apoio de tod@s” não existia, e continuou sem vir. Ao contrário, a partir desse momento começaram muitos questionamentos sobre o projeto de lei.

Além desses questionamentos sobre o projeto, começou-se a se questionar o por quê de a vereadora não responder às críticas e perguntas que iam surgindo. “Dá pra senhora responder as perguntas feitas, por favor?”, escreveu uma garota.

Mas as perguntas feitas não foram respondidas. Em vez disso, a vereadora fez outra postagem, na qual dizia estar “muito feliz com a repercussão”.

Abaixo dessa declaração, uma enxurrada de quase 200 comentários (embora, como se pode ver, esses quase 200 foram reduzidos a 65…). Dezenas de pessoas questionavam a vereadora, sem que ela se manifestasse sobre nenhuma das críticas. Muitos desses comentários, inclusive, eram de extrema pertinência, com observações bastante inteligentes e embasadas sobre os problemas notórios do projeto.

No dia seguinte, 7 de dezembro, com um turbilhão de pessoas criticando o projeto em suas postagens, a vereadora (ou sua assessoria) postou um álbum de fotografias mostrando alguns bares nas ruas do centro da cidade.

As fotos, escuras e sempre buscando um olhar sobre a sujeira, foi motivo de muita chacota entre os comentários, como “Vereadora, são pessoas felizes nas fotos, tomando uma cervejinha depois do trabalho. É isso que a senhora quer proibir?” Ou ainda: “Se essas ruas são escuras é culpa do abandono da prefeitura e dos vereadores! Não puna as pessoas pela falta do trabalho de vcs”.

Mais e mais comentários chegavam em tom crítico à postagem das fotos, e tantos outros criticando o projeto de lei da vereadora, e ainda muitos questionando-a se ela não iria responder às perguntas de nenhum cidadão.

Porém, não veio resposta alguma de Marília Arraes. O que vieram foram mais e mais postagens dela, uma por sobre a outra, ignorando completamente as centenas de comentários que surgiam em sua página. Um verdedeiro picadeiro de crise de gestão de mídias sociais estava armado.

Depois do álbum, surgiu uma postagem com uma “nota técnica da secretária de saúde do Estado”, depois outra com a íntegra dos projetos de lei. Em seguida, na sexta-feira, outra postagem com um depoimento do secretário de defesa Wilson Damázio (defendendo a proibição, claro).

Pra fechar a sexta-feira com chave de ouro surge uma postagem dizendo que a Câmara havia aprovado os projetos por unanimidade – como se isso fosse algum atestado de que as pessoas deveriam achar que o projeto era bom.

Esse comportamento da assessoria de imprensa da vereadora, que observei muito atentamente durante todos esses dias, caracteriza uma postura típica de quem desconhece completamente o funcionamento dinâmico das redes sociais.

A intenção desse “post sobre post”, ao que me pareceu, teve como objetivo sufocar o dissenso, passando por cima das opiniões contrárias, e representa uma forma de comunicação totalmente ultrapassada, própria dos veículos tradicionais de mídia que funcionam a partir do broadcast (que significa “difusão”, “transmissão”), empurrando goela abaixo pílulas e mais pílulas de informação na tentativa vã de “morgar o papo a partir do argumento da autoridade”.

Mas em tempos de socialcast, onde cada pessoa é sua própria mídia, cada pessoa é produtora de conteúdo (e, mais do que isso, cada indivíduo é um transmissor, um broadcast), as informações não dependem de um único hub (concentrador), e a consequência é que as críticas e opiniões contrárias se espalham como uma avalanche por diversas outras mídias sociais, em cada perfil de Twitter, de Facebook, de Orkut, etc.

É precisamente esse o poder de difusão incontrolável das mídias sociais. É neste ponto que a internet virou definitivamente a mesa da comunicação social tradicional.

A interlocução bem-vinda

Ainda na sexta-feira, a própria vereadora veio ao seu Facebook para responder algumas pessoas nas seções de comentários. A atitude foi elogiada por várias pessoas, e dava a entender que as coisas estariam, agora, caminhando no rumo certo.

No sábado de manhã, Marília Arraes postou uma mensagem pedindo desculpas pela demora em responder, o que denotou uma virada muito positiva para a parlamentar municipal.

Adotando um tom mais sociável, a vereadora respondia alguns questionamentos e ignorava outros. Logo em seguida, às 9h da manhã deste mesmo sábado, Marília mostrou que apesar de aparentar-se afeita ao diálogo, não estava disposta a voltar atrás de seu projeto, extremamente criticado de forma bastante fundamentada, por dezenas e dezenas de pessoas.

A vereadora se mostrou irredutível, fazendo outra postagem com sua opinião em defesa do seu projeto de lei. A repercussão continuou muito grande, tanto dentro de sua página como em dezenas de perfis tanto do Facebook, quanto do Twitter. Socialcast… lembram?

Em seguida, a vereadora parece ter retomado sua postura inicial, verticalizada, fazendo mais e mais postagens de notícias extraídas de jornais e blogs sobre o projeto, atropelando todas as opiniões contrárias à sua.

Enquanto isso, suas seções de comentários fervilhavam mais e mais…

O fim de semana, então, foi concluído com a postagem de uma matéria da Folha Online sobre o projeto. Essa atitude deixou ainda mais contrariada a opinião pública.

A vereadora acabava de perder uma grande chance de virar toda a a polêmica em seu favor.

Recifenses sem voz: a censura em tempos democráticos

Como os projetos de Marília Arraes foram aprovados com emendas, eles voltaram às comissões e nesta segunda-feira seguiriam novamente para votação no plenário. Um grupo de pessoas esteve na Câmara de Vereadores (inclusive eu) para tentar dialogar com Marília Arraes, que numa postura louvável havia convidado para irem até o seu gabinete apresentar suas opiniões.

Ainda de manhã, a vereadora se comprometeu a retirar seu projeto de votação, para que os debates se aprofundassem. Para surpresa de quem conversou pessoalmente com a vereadora, não só o projeto não foi retirado da Ordem do Dia, como seria votado mesmo depois de a vereadora dar sua palavra em contrário.

Sobre o dia de ontem na Câmara, escrevi um post no meu blog (leia aqui), e nele reproduzi a moção de repúdio ao projeto, que escrevemos.

Quando cheguei da Câmara, à noite, fui surpreendido. Eu e várias pessoas havíamos sido excluídos da página de Marília Arraes!, e nossos comentários foram sumariamente deletados.

Porém, o mais curioso foi acompanhar o Twitter da assessora de imprensa da vereadora, que comentava sobre o assunto na mesma hora em que censurava centenas de comentários. Confiram algumas de suas mensagens:

De forma alguma eu condeno a postura pessoal da assessora de Marília Arraes. Ela tem o seu direito de falar o que pensa. Mas sobre seu comportamento profissional, tenho inúmeras críticas.

A começar pelo fato de que ela tem um cargo público comissionado e seu salário é pago com o nosso dinheiro, o dinheiro dos contribuintes, entre eles, os próprioscidadãos debatedores que ele classifica como “pseudo-intelectuais” – como se todos os cidadãos recifenses fossem obrigados a compartilhar de suas mesmíssimas vulgaridades de pensamento!

A assessoria da vereadora Marília Arraes fez uma verdadeira “limpeza” nas seções de comentários, e praticamente todo o contraditório desapareceu – e, agora, as seções de comentários do Facebook da vereadora mais se parecem às seções de blogs como o de Reinaldo Azevedo ou de Paulo Henrique Amorim, limpas e praticamente sem discordâncias, como se possível fosse uma democracia existir sem o dissenso.

A impressão que ficou é que a “limpeza” feita no Facebook reflete o próprio higienismo do projeto da vereadora: “vamos varrer a sujeira (o dissenso) pra debaixo do tapete e fingir que vivemos numa cidade limpinha (sem oposição).

Para infelicidade da vereadora e de sua assessoria, eu fiz uma cópia de praticamente todos os comentários antes deles serem deletados.

Imaginava que isso poderia acontecer a qualquer momento, e agora transformei toda essa repercussão em um arquivo pdf., pois a perda de toda essa memória seria inaceitável para um blogueiro historiador como eu…

Façam também o download da nota publicada hoje por internautas contra o PL clicando aqui.

Articulação para barrar o projeto

O projeto de lei da vereadora acabou sendo retirado de pauta na tarde desta segunda-feira, e sua votação foi adiada. Eu e mais um grupo de pessoas fizemos uma comissão para manter ativa a oposição ao projeto, uma vez que o PL havia sido aprovado por unanimidade pela Casa!

Ainda ontem conseguimos o apoio do vereador Osmar Ricardo (PT), e vamos continuar articulando o apoio de outros parlamentares para aumentarmos nossa representatividade no momento da votação – caso a vereadora não desista do projeto.

Por isso, fica aqui o chamado para tod@s que quiserem se juntar à discussão e ampliar uma oposição popular a este projeto de Marília Arraes. Por enquanto, vocês podem acompanhar através de um dos canais de comunicação que criamos, no Twitter: @contraleiseca. Depois ainda criaremos outros canais.

Este é um momento muito importante para nós cidadãos mostrarmos aos parlamentares desta cidade que eles não podem governar para si mesmos, mas para toda a coletividade – pois não apenas os elegemos, também somos nós quem pagamos seus funcionários comissionados, bem como os seus salários de mais de 9 mil Reais.

Fonte: André Raboni, do Acerto de contas

 

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